A ascensão da inteligência artificial (IA) na indústria da moda está transformando a maneira como marcas produzem conteúdo visual, trazendo vantagens financeiras significativas, mas também levantando questões éticas e de sobrevivência profissional para modelos. Com a capacidade de criar imagens realistas a partir de algoritmos, empresas estão economizando até 90% em comparação com as tradicionais sessões fotográficas com modelos humanos.
No entanto, essa inovação não vem sem suas ameaças. A falta de regulamentação clara em relação ao uso de réplicas digitais de pessoas levanta preocupações sobre a exploração de modelos, que podem ver suas imagens utilizadas sem consentimento ou compensação adequada. Em uma análise realizada pela Reuters, contratos de marcas renomadas como Diesel, Calvin Klein e L’Oréal revelaram propostas que permitem alterações significativas nas imagens dos modelos, incluindo a criação de cópias digitais sem pagamento adicional.
O impacto dessa tecnologia sobre o mercado de trabalho foi discutido por profissionais do setor. Adot Gak, um modelo londrino, alertou que a demanda por trabalhos pode diminuir drasticamente em um futuro próximo. “Se não nos manifestarmos sobre isso, em dois anos toda a indústria será apenas robôs”, afirmou, refletindo o receio de muitos que dependem desse setor para sua subsistência.
Enquanto algumas marcas, como a espanhola Mango, já adotam modelos gerados por IA em suas campanhas, outras, especialmente no segmento de luxo, permanecem cautelosas. A Moncler e a Gucci, por exemplo, testaram campanhas com IA, mas ainda não incorporaram essa tecnologia de forma definitiva em suas estratégias.
A tecnologia também permite uma flexibilidade sem precedentes: varejistas podem modificar repetidamente as características faciais e corporais de modelos em suas imagens, criando o que Patrick Staal, da Uniko Models, descreve como “gêmeos digitais”. Essa abordagem, embora financeiramente vantajosa para as marcas, levanta questões sobre a identidade e o valor dos modelos humanos.
As implicações vão além do imediato. Modelos podem inadvertidamente estar contribuindo para a criação de suas próprias substituições, ao autorizar o uso de suas imagens para treinar sistemas de IA. O contrato da Calvin Klein analisado pela Reuters, por exemplo, previa que modelos autorizassem o uso de suas imagens, sem compensação, para o aperfeiçoamento de ferramentas de IA.
Com a rápida adoção de IA por empresas como a Zalando, que fechou estúdios fotográficos e demitiu centenas de funcionários, o futuro da profissão de modelo se torna cada vez mais incerto. “Estamos economizando muito dinheiro”, admitiu Julian Jansen, da About You, destacando a eficiência que a IA traz ao setor.
Enquanto isso, a regulamentação ainda está aquém das necessidades. A Lei dos Trabalhadores da Moda em Nova York, que entrará em vigor em 2025, oferece um vislumbre de proteção ao exigir consentimento explícito para o uso de réplicas digitais. Contudo, essa é uma exceção, e muitos modelos em outras regiões ainda enfrentam a ameaça de exploração em um mercado que não parece estar preparado para lidar com as mudanças trazidas pela tecnologia.
À medida que as discussões sobre direitos e ética se intensificam, a indústria da moda se vê em um ponto de inflexão. A necessidade de um diálogo aberto e regulamentações claras se torna cada vez mais urgente, pois a linha entre inovação tecnológica e exploração humana se torna mais tênue a cada dia.



